alexandre colchete
28 05 1986

guilherme da mata
10 08 1988

rafael di celio
21 02 1990








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layout por alexandre colchete

[quinta-feira, janeiro 25, 2007]

Media a noite pelo número de cigarros, porém ainda não passavam de três maços. Rua calma. Observava as pessoas passando. Observava uma por uma como em um estudo de antropologia... Não podia deixar de notar as expressões na cara de cada um. Uma noite comum, sem estrelas. O céu sorria pra ele... Céu cinzento de cidade. O dedo no gatilho, dedo nada tímido.

Uma mulher. Um vestido. Uma vítima.

Fitava-a sem apreço. Para ele, uma vítima como outra qualquer.

Media a noite pelo número de homens, porém ainda não passavam de dois. Rua calma. Observava o homem do outro lado da rua, que fumava um cigarro. Não podia deixar de notar as expressões na cara dele. Uma noite comum, sem estrelas. O céu envolvia-a. Sabia que se o céu fosse homem, estaria olhando para ela. Seus cabelos louros engatilhados, nada tímidos.

Um homem. Um cigarro.

Fitava-o sem apreço. Para ela, um homem como outro qualquer.

- Estava esperando por você

- Há três maços.

Tiros.

- Está linda com esse vestido. Combina com o sangue.

E entranhou-se na noite.


postado por rafael di celio em: [4:49 PM];



tapete enrugado, cortinas no chão, vodka derramada, porcelana em cacos, as flores da cabeceira pisadas e um lençol creme remexido, ensopado de vermelho. tudo fora do lugar. nua, exposta, jogada na cama como bicho. ana. ventre aberto por um corte audaz, profundo. a blusa dela podia pingar, se não já estivesse no chão. nenhuma evidência encontrada pela perícia. ao lado da blusa, um porta-retrato caído e quebrado, com a face para baixo. virei-o mas foi inútil. estava vazio. que tipo de gente usaria um porta-retrato vazio? que tipo de retrato é colocado numa cabeceira ao lado de uma cama de casal? crime passional. 70%.

"ela morava sozinha ali há uns anos. quando se mudou parecia ser uma moça bem triste, do tipo que perdeu alguém, mas ao mesmo tempo bem decidida do que estava fazendo. fui eu mesma quem cuidou da papelada. parecia estar recomeçando a vida. não a vi mais até que, um tempo depois, um rapaz passou a lhe fazer visitas. luís. era a única pessoa que a visitava! vivia aparecendo. quase todos os dias, bem no final da tarde. uma moça de sorte! ele trazia flores. às vezes uma garrafa de bebida também. mas da janela eu só podia ver até aí. e ouvir também. trocavam poucas palavras na porta, geralmente um beijo rápido e tímido, e logo que entravam colocavam música alta e eu já não ouvia mais nada. não costumava ficar por muito tempo. ele parecia querer, mas nunca passou a noite inteira ali. parecia sempre atrasado. chegava e saía da vila olhando para o relógio com passos apertados, mas nunca deixou de vir. e logo depois ela ia pra janela por alguns minutos. sem música. perdida nos pensamentos. fumava um cigarro e sumia casa adentro. e essa era a vida da moça até hoje."

ela não era vista no quintal, na porta ou na rua. parecia ser a única da vila que não trabalhava. não tinha idade para ser sustentada por pais, tampouco ser aposentada. pensão? crime passional. 80%.

suas únicas companhias eram o jovem, suas flores sempre frescas na sacada, suas cinzas de cigarro, seus discos, suas roupas e seus desejos. eu podia ler monotonia na poeira em cima dos móveis. nada ali acontecia. a casa era modesta. poucos móveis, arranjados de maneira bem simples em poucos cômodos. nada ali era extravagante. nem as paredes brancas eram tão brancas. a geladeira quase vazia não me surpreendeu. certo. nada ali me surpreendia. seria uma mulher de poucas ambições? ou o tal jovem a fazia desprender-se do resto? uma paixão? crime passional. 90%.

a autópsia desvendou a arma. a robustez do corte indicou que não se tratava de uma mera faca de cozinha. ela foi então atacada por alguém preparado e decidido. alguém que planejou uma entrada pela janela dos fundos, driblou os poucos móveis no escuro e a assassinou. de uma só vez. no escuro. sem grito, sem dor. sem extravagância. depois de tanto remexer, descobriram uma gravidez de quase um mês. crime passional. 100%.

já fechando o abdômen da vítima, os legistas foram surpreendidos por um pequeno reflexo brilhante entre os órgãos da mulher.

era plástico. um texto escrito à mão, plastificado.




um texto para nunca ser descoberto que nos contou toda a verdade.




"Perdoa minha frieza e covardia. Fiz isso por ter pecado a amar quem não devia. Amei-te em silêncio pois o amor entre um servo de Deus e uma prostituta, Jesus não aprovaria. Luxúria é perdoável no purgatório e seus muitos homens eu entenderia. Mas por ter uma família, ser obrigado a dar as costas a uma criança é que eu não agüentaria. Que seja enterrado este segredo, e fique entre nós três: Luís, Ana e Maria, nossa filha."

postado por alexandre colchete em: [3:33 PM];


[quarta-feira, janeiro 24, 2007]

* atenção senhores passageiros, o trem que se encontra na plataforma aguardará mais alguns minutos antes da partida, por motivos de normalização do tráfego, pedimos...*

_ não que ele vá se importar...
_ não aponta assim pra ele.
_ não que ele vá se importar...
_ sacanagem com o cara, ele não é maluco.
_ ele tá aí há uns dois anos, sei lá, só fica fumando aí, é maluco.
_ ele era perfeitamente normal, a história dele é famosa por aqui.
_ é?
_ ahan.
_ maneiro.
_ é, ele não é maluco, não.
_ ahan, entendi.


_ po, você tem mó sotaque carioca!
_ eu forço o erre?
_ não, extende o i: "entendii..." - isso é tão carioca!
_ é? não tinha reparado...
_ todo carioca extende o i, no final da frase, quase ninguém percebe isso.
_ você tá inventando isso, né?
_ droga, eu tava. desculpa.
_ relaxa...
_ tá, relaxei.


_ viu, filei um cigarro do maluco, sem ele ver, ele é maluco!
_ que molecagem! bem feito, aí: menos cinco minutos na sua vida.
_ concordo. que molecagem, menos cinco minutos na minha vida.
_ não, você não entendeu.
_ não mesmo.
_ você que pensa.
_ eu sei.


_ quantos vem? uns vinte?
_ deve ser, sei lá...
_ poxa, uns quarenta desse por dia, hein!
_ imagina aquele maluco.
_ ele não é maluco, ele tá alí há uns dois anos, sei lá, só fica fumando
_ aí, é maluco.
_ ele era perfeitamente normal.
_ a história dele é famosa por aqui, é?
_ ahan.
_ maneiro.
_ é.
_ ele não é maluco, não.
_ ahan.
_ entendi.

_ aí o sotaque de novo.

postado por gui lherme em: [9:06 AM];


[domingo, janeiro 21, 2007]


postado por rafael di celio em: [2:54 PM];


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